Carmilla – Drácula, 25 Anos Antes

A indicação da vez na verdade é de um clássico da literatura gótica. A obra veio a ser uma das fontes de inspiração para a escrita de Drácula e deu o pontapé inicial para elementos comuns em histórias de vampiros.

O vampirismo na literatura e na cultura pop tem servido como uma metáfora para um amor possessivo, doentio, destrutivo – mesmo que a intenção seja romantizar a situação (a saga Crepúsculo, como todos sabemos) – e abuso sexual.

Carmilla, escrito por Joseph Sheridan LeFanu, publicado entre os anos 1871 e 1872, fala disso tudo e um pouco mais. Nesta noveleta, o vampirismo é também analogia para a sexualidade feminina e atração homoerótica: a protagonista da história, Laura, é seduzida por Carmilla, vampira que dá nome à obra.

Talvez não tenha sido a intenção de LeFanu quando ele escreveu sua história, mas ela é sutilmente transgressora ao lidar com a atração entre duas protagonistas.

Em uma primeira camada, está o óbvio.

O fato de Carmilla ser uma vampira cuja atração era apenas o desejo de se alimentar de Laura, a consumação disso ser algo repugnante e fatal para a sua vítima, e os simbolismos presentes em todo o texto de que apenas o amor puro do pai da protagonista a podia salvar da maligna monstra (e, portanto, da atração por ela), tudo isso pode ser lido como a moral de uma fábula para crianças: não se atraiam por outra mulher.

Carmilla representa uma mulher livre da dependência de homens – por depender apenas de sua misteriosa “mãe” – e por se relacionar apenas com outras mulheres. Durante toda a história, não existe um só personagem masculino vítima de sua sedução.

Em suma, ela pode ser muito bem uma leitura mais antiga do tropo “demônia sedutora”, com uma boa quantidade de lesbofobia/bifobia por cima, para completar o pedido. O que esperar de algo escrito em 1872?

“Deixa eu dar uma chupadinha, vá lá”

Mas daí entra a parte onde eu fiquei impressionada com a forma como LeFanu escreveu sua narrativa.

Não é incomum ver releituras da figura do vampiro onde a criatura tem poderes psíquicos, de controle mental. Seria bastante fácil isso ser um elemento da história e, portanto, invalidar a atração de Laura desta forma, como sendo apenas um truque, mas este não é o caso.

A vampira seduz sua vítima com arroubos de afeição e juras de amor perturbadoras, entretanto a atração de Laura por Carmilla se dá mesmo antes disso, e é algo explícito em vários pontos, ainda que a garota estivesse confusa em relação aos seus sentimentos. Em momento algum seu desejo é atribuído aos poderes sobrenaturais da vampira.

A descrição do misto de atração e repugnância foi curioso para mim, lendo algo escrito por um homem na época vitoriana, pois acredito ser um sentimento comum da homofobia internalizada – algo que eu mesma experimentei.

O enredo de Carmilla tem muitos elementos que aparecem em Drácula, e inclusive introduz a figura do especialista em vampiros. No fim, o monstro é destruído. Isso poderia ser uma grande alegoria de como o amor do pai de Laura a curaria de suas aflições ao aniquilar a “razão” da confusão toda.

No entanto, Laura se vê permanentemente mudada por Carmilla, e reconta a história com sentimentos conflitantes, saudosos, em relação a ela. O fato de Laura não poder ser curada da sua influência mesmo após sua destruição foi uma decisão narrativa interessante: Carmilla é uma vampira que pode apenas sentir desejo por sangue, mas Laura é humana, capaz de amor genuíno, e seus desejos são reais e não apenas uma espécie de hipnose ou controle mental.

Enquanto Drácula gira mais em torno da luxúria e da pureza sexual, Carmilla discute a sexualidade entre mulheres, utilizando-se dos mesmos elementos.

Nota da Autora: Aqui no Usina, estamos há zero dias sem fazer piada com “chupar” e “comer”

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